sábado, 22 de janeiro de 2011

22 de janeiro de 1911

Dia do nascimento de Bruno Kreisky - político austríaco que viria a ser Chanceler da áustria

PORTO ALEGRE, DOMINGO, 22 DE JANEIRO DE 1911

Correio do Povo do dia 22 de janeiro de 1911 noticiava:

Pesquisa e edição: DIRCEU CHIRIVINO

O tempo - Apesar de todas as previsões de chuva, o dia de hontem resplandesceu innundado de sol. Por isso mesmo foi quente, marcando o thermometro 30 graus.

Para a tarde, ameaçou chover, mas um vento forte espalhou as nuvens negras que se espalhavam no horizonte, e a noite desceu rutilante de estrellas.

Extincção de um municipio - Sabemos que o governo do Estado extinguiu o municipio de Dores de Camaquam, cujo territorio annexou ao desta capital. O decreto do governo nesse sentido deverá ser publicado amanhã.

Novas ruas - O coronel Emilio Guilayn, director do Banco da Provincia, dirigiu á Intendencia Municipal um requerimento, pedindo permissão para abrir ao transito publico diversas ruas, na sua chacara, á rua da Azenha. O coronel Guilayn já mandou organizar uma planta, indicando o traçado das novas ruas.

Viação Ferrea - Em março próximo, serão mudados de Santa Maria para esta capital os escriptórios da directoria, da contabilidade e da conferencia da Viação Ferrea.

Carteira de identidade - No gabinete dactyloscopico da Chefatura de Policia, tirou, hontem, carteira de identidade o sr. Agostinho Henrique da Silva.

Pensão Hampel - Realisou-se, domingo ultimo, na Pensão Hampel, situada na Bocca da Serra, proximo a villa de São Francisco de Paula, um concerto vocal e instrumental, em beneficio da projectada capella de Nossa Senhora da Conceição, a erguer-se naquela localidade.

Telegrammas

Chuvas e secca

Quarahy, 21 - As chuvas que cairam sobre esta cidade foram insignificantes e não extinguiram a secca. Devido a isso há grande escassez de gados gordos, cujos preços continuam firmes.

O calor

Bagé, 21 - O calor continua suffocante.

A safra

Quarahy, 21 - O saladero Novo Quarahy abateu, hontem, 35 rezes, perfazendo um total de 4.309.

Casino

Rio Grande, 21 - No Casino haverá bailes hoje e amanhã. No dia 29 do corrente iniciar-se-á, naquella praia de banhos, uma série de bailes de gala.

Incendio e mortes

New-York, 21 - A bordo do vapor Parisana, em viagem para Melbourne, occoreu violento incendio, impossivel de ser dominado. Os tripulantes embarcaram em chalupas, navegando a esmo. Tres delles morreram de inanição. Depois de muitos dias de soffrimento, os demais naufragos foram recolhidos a uma navio que passava.

(Londres)

22 de janeiro de 1911

Hontem, por occasião de uma manifestação das suffragistas, se deram varios incidentes, sendo necessario a policia intervir afim de impedir os excessos das mesmas. Uma das suffragistas arrancou uma bandeira da porta de um estabelecimento e outra arrebatou o chapeu da cabeça do sr. Churchill, ministro do interior, que passava na occasião.

Domingo, 22 de Janeiro, 1911

O ESTADO DE SÃO PAULO

Domingo, 22 de janeiro de 1911



A nossa estampa reproduz o lugar, á margem do Rio Pardo, em S.José do Rio Pardo, onde o nosso saudosos collaborador Euclydes da Cunha passou longos mezes, a fizcalisar e dirigir a reconstrucção da ponte sobre aquelle rio. Na casinha de zinco, que se vê á direita, foram escriptas muitas e muitas paginas do notável livro “Os Sertões”. O povo de S.José do Rio Pardo e a camara municipal conservam com carinhoso cuidado aquelle trecho da cidade, tal como o deixou o garnde escriptor.
O nobre procedimento daquelle povo e das suas autoridades, prova bem eloqüente da sua cultura e do seu civismo, dá-nos a certeza de que em breve será erigida naquelle local a herma de Euclydes da Cunha ou outro monumento que lembre a permanência do infeliz membro da Academia Brasileira naquella cidade, ligada para sempre à história do seu incompatível livro.




Os progressos do despotismo
Uma das maiores illusões em que acredita inconscientemente a nossa época positiva, é de ter feito desaparecer até a recordação dos despotismos antigos e de viver em pleno regimen de liberdade.
Sem duvida, se por liberdade entendermos sómente a que as leis nos concedem, ella não falta. Mas, se por liberdade entendermos também aquella que nos deveria ser concedida pela educação política e pelos hábitos sociaes, ella ficou limitada em tão estreitos limites que nós não podemos quase mais vê-la.
Todos ou quase todods os partidos são animados por uma idêntica tendencia à tyrannia. (…) Exemplos muito recentes nos provam que partidos também entre elles affins (socialistas e republicanos, socialistas antgo stylo e syndicalistas) estão materializados num recíproco ódio, tanto mais profundo quanto mais é fraternal. Por meio desse ódio elles tendem a subjugar o adversário para ficarem senhores do campo para exercer sua tyrannia. O espírito despótico que agitou durante algum tempo a psychologia individual dos soberanos, agita hoje a psychologia collectiva dos partidos, sobretudo dos partidos extremos.
(…)Querem que seu filiado seja em sua mão , se se atreve ter um lampejo de independência, o excommungam. Se, por exemplo, um operário ousa acceitar trabalho durante uma greve, boycottam-n’o.
Esta é a liberdade interna dos partidos. Quanto á liberdade em relação aos adversários, sabemos como ella é respeitada com as tentativas de greve geral dos sercviços públicos e com a sabotagem. (…) Exercita-se, isto é, sob o mentiroso nome de liberdade política, a mais perigosa das chantagens, o mais grave dos despotismos.(…)
Nos paizes latinos a vida política dos últimos annos pode ser resumida nestes dois factos contradictorios: de um lado, batalhas verbaes, durante as quaes todos os oradores de todos os partidos proclamam o ódio ao despotismo e o amor à liberdade; do outro lado, batalhas effectivas, por meio das quaes cada classe e partido tende a exercer a tyrannia e fazel-a supportar aos outros.
Achamo-nos no estado psychologico da revolução franceza (quando mesmo em nome da liberdade, se exercia a tyrannia) com esta diferença: que há menos grandeza, menos sinceridade e falta, sobretudo, no fundo, o lúgubre perfil da guilhotina. A uma época medíocre, medíocres perigosos. (…)
Gustavo Le Bom, num seu livro há pouco publicado (“La psycologie politique”), livro um pouco unilateral e confuso, mas que é uma mina de idéas geniaes, analysa mesmo o paradoxo social dos “progressos do despotismo”, e entre as muitas causas do phenomeno, apresenta uma que me parece, sobre as outras, muito justa. Por que- diz elle- permittimos que cresçam em torno de nós tantas tyrannias que uerem substituir-se á autoridade do Estado? Porq que há hoje potencias formidáveis que podem, numa mesma nação, medir-se com o governo, ditar-lhe as condições da capitulação, impor-se a elle e a todo o paiz? Porque a palavra de um demagogo, ouvida e obedecida como um evangelho por uma multidão insconsciente, pode, subitamente, paralysar um serviço publico, parar a vida de uma cidade, cortar as communicações entre províncias, dar a um povo inteiro a sensação de uma syncope, que parece  com a sensação de morte?
Porque- responde Le bom- há um fantasma que domina apolítica e é o medo. Os homens do governo, salvo raras excepções, vêm em toda parte esse fantasma. E tal visão faz dos seus actos uma cadêa de concessões diante de um perigo que se mente, a sua fantasia engrandece.
Uma primeira fraqueza arrasta as outras, e dá aos adversários a consciência de uma força que elles mesmos não tinham a certeza de possuir.(…)
(…) O que falta na nossa vida política é a exacta avaliação dos valores moraes. Nós acreditamos na força do dinheiro: mas não temos sufficiente confiança na força moral. A multidão e a riqueza, eis as duas divindades diante das quaes tudo se explica. A energia individual é hoje, em política, uma divindade sem altares.
Pelo contrario, onde esta energia apparece faz curvar diante de si, mais do que qualquer outra, as multidões. (…)

INGLATERRA
Os acontecimentos do Rio- Commentarios do “Economist”
LONDRES, 21 (D.)- O “Economist”, baseando-se em noticias do Rio, commenta os últimos acontecimentos havidos na ilha das Cobras, insinuando ser inverosimel a versão official de que quarenta e cinco marinheiros revoltosos falleceram simultaneamente de insolação e dezoito accidentalmente asphyxiados.
Accrescenta que a rigorosa censura estabelecida pelo governo do Brasil desde o começo da revolta o impossibilita de conhecer pormenores sobre esse como sobre outros factos garves occorridos recentemente em vários pontos do paiz.
Termina dizendo parecer ser muito seria a situação no Estado do Rio, por ter o governo federal exorbitado de suas funcções, intervindo na vida íntima daquelle Estado.
FRANÇA
A presidência do Banco do Brasil
PARIZ, 21 (H.)- O “Figaro”, “L’Action” e “Le Temps” publicam telegrammas do Rio de Janeiro noticiando que o sr. Hermes da Fonseca convidou o sr. Nilo Peçanha para presidente do Banco do Brasil.
N.da R.- Por este despacho vê-se confirmada a noticia que o nosso correspondente do Rio, há mais de um mez , transmitiu ao “Estado” dizendo que o sr. Nilo Peçanha reclamára do marechal Hermes da Fonseca, no dia da sua posse, a presidência daquelle instituto, pretextando ser um homem pobre e que necessitava daquelle emprego.
FRANÇA
A Inglaterra e a Russia na Persia
PARIZ, 21 (H.)- O ministro da Persia declarou a um redactor do “Matin” que os persas se mostram dolorosamnete estupefactos ouvindo em toda a parte falar-se da partilha da Persia.
No documento que o ministro da Inglaterra entregou ao ministro das relações exteriores da Persia em 5 de setembro de 1907, depois do famoso accordo anglo-russo, a Inglaterra se comprometeu a respeitar inteiramente a independência dos persas.

22 de Janeiro de 1911 - As mulheres nas Academias

22 de Janeiro de 1911 - As mulheres nas Academias
A propósito da polémica instalada em França acerca da admissão – ou não – de Madame Curie na Academia Francesa, o jornal O Século entrevista alguns sócios da Academia de Ciências de Lisboa: Henrique Lopes de Mendonça afirma, “com um sorriso de bonomia a brincar-lhe sob o seu farto bigode grisalho: Mas, segundo a minha opinião, não há motivos para não serem conferidos graus académicos a senhoras. Tencionava, mesmo, propor, ma próxima sessão da Academia das Ciências, duas senhoras de grande cotação no nosso meio literário. Refiro-me a D. Carolina Michaëlis de Vasconcelos e D. Amália Vaz de Carvalho (…)”.
Pina Vidal, membro da Academia na secção de física “não concorda com a oposição feita a madame Curie. Uma mulher que, como a célebre professora da Sorbonne, consegue triunfar no mundo intelectual, a despeito de todos os embargos mesquinhos e vis que lhe assaltam o caminho, tem (…) mais merecimento que um homem. Quando se apresentar uma candidatura feminina na Academia, acolhê-la-á com grande prazer”.
Marrecas Ferreira, da secção de matemática: “A mulher que se nobilita no campo da ciência, das letras ou da arte, encontra em mim um grande admirador. Não é somente nos seus trabalhos que eu embeveço o meu espírito; é, antes de tudo e sobretudo, no meio agreste que lhe foi preciso transpor para reagir contra uma atmosfera de hostilidade (…). A França, debatendo a candidatura de Madame Curie, demonstra a evidência que está bem longe de ser socialmente uma República”.